Diário do Alentejo

Luís Filipe Maçarico: Ameaças ambientais “podem matar” o Alentejo

13 de maio 2019 - 17:00

Texto José Serrano

 

Luís Filipe Maçarico apresenta hoje, dia 17, às 17:00 horas, no Centro de Estudos Islâmicos e do Mediterrâneo, em Mértola, o seu novo livro de poesia intitulado Uma Casa é Como Uma Árvore Por Dentro. A apresentação desta obra, no âmbito do programa do Festival Islâmico de Mértola, estará a cargo da arqueóloga Susana Gómez Martinez e conta com a declamação de poemas por José Alberto Franco e Maria Eugénia Gomes.

 

É nesta casa, a do título, que a sua vida tem morado?

Durante décadas vivi em Lisboa, no bairro de Alcântara. A casa foi cais de partidas e chegadas. Em criança, a chuva repassava soalhos e caía na minha cama de menino pobre. Em velho, a chuva voltou a cair, no quarto. Foi um convite para sair. Moro há três anos em Almada. O livro fala da casa antiga e da nova, metaforicamente compara-as a uma árvore, e nas suas páginas o leitor é convidado a viajar dentro do mundo do poeta e dos sítios onde deixou uma pegada de afeto ou de espanto: Madrid, Tozeur, Jerba, Alpedrinha, Beja. 

 

Atualmente, em que a urgência parece estar ao leme das sociedades, é a poesia hoje uma espécie de extravagância e os seus autores e leitores inusitados humanos?

A poesia contrabalança o desconcerto do mundo. É uma espécie de oásis no meio da violência e da estupidez humana que nos invadem a casa através das notícias televisivas, que quase não mostram a escala humana daqueles que asseguram desesperadamente a paz. “Abensonhados” – usando um termo de Mia Couto – os leitores que bebem esperança em versos.

 

Um poema seu é algo visceral, que surge momentâneo e escrito de um fôlego, ou pode o mesmo ser analisado, corrigido?

Eugénio de Andrade aconselhou-me a trabalhar os poemas, que sempre surgiram de forma espontânea, brotando de um sopro no papel. Por vezes, tento “esculpir” melhor as palavras, mas procurando sempre não perder a tal espontaneidade que considero essencial à escrita poética, como uma segunda pele.

 

Pode um poema seu revelar-lhe algo, de si, até então desconhecido?

A escrita liberta, porque produz uma espécie de escape para as tensões quotidianas ou então conforta enquanto espelho da caminhada, onde se busca equilíbrio ou se afirma um rumo divergente. Por vezes perturba, outras há que harmoniza.

 

Qual a palavra, na sua poesia, mais dolorosa de escrever?

Mãe. Quase não aparece nos meus poemas. Porque nunca fez parte dos meus dias. Ainda bem que assim foi, senão talvez não fosse quem sou.

 

Quanto do Alentejo está implícito na sua visão poética da existência?

O Alentejo é um apelo, uma essência que me perseguiu sempre, desde que tive consciência da sua importância no meu caminho. Neste Uma Casa é Como Uma Árvore Por Dentro, no poema “Os horizontes largos da poesia”, falo intensamente da “minha casa que é o Sul”. Mas estou muito preocupado com as ameaças ambientais que podem matar uma terra que é fonte de poesia

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