Diário do Alentejo

Guardas prisionais acusam prisão de Beja de “falta de segurança” e “má gestão”

29 de novembro 2025 - 08:00
Profissionais retomam greve geral a partir do próximo dia 16 de dezembro
Foto | Ricardo ZambujoFoto | Ricardo Zambujo

As “quebras de segurança” no Estabelecimento Prisional de Beja, resultado da alegada “má gestão” da atual direção, levou os guardas prisionais da instituição a entrarem em greve no início de outubro. Após uma suspensão “temporária” para negociações entre o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional e a atual diretora, o protesto será retomado na próxima semana com a recusa em fazer horas extras.

 

Texto Ana Filipa Sousa de Sousa

 

Foi no início do mês que, no Estabelecimento Prisional de Beja, um guarda foi agredido por um recluso quando este ameaçava uma profissional de saúde, após a recusa desta em entregar “uma medicação que não constava da sua prescrição clínica”. O episódio gerou críticas por parte do presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional que, em declarações ao “Diário do Alentejo” (“DA”), acusa a direção do referido estabelecimento de “má gestão” e, consequentemente, de “quebras de segurança enormes”.“O que se passa é que nós estamos a assistir constantemente a uma falta de segurança no Estabelecimento Prisional de Beja, em que tudo é motivo para tirar guardas da zona prisional, desde o cante alentejano ao excesso de diligências”, começa por explicar Frederico Morais. Segundo o responsável, um desses exemplos ocorreu recentemente, quando um profissional de saúde garantiu que “não havia necessidade” de um recluso se deslocar ao Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja, e “a senhora diretora mandou-o na mesma”. “Preocupa-nos que não haja uma visão macro de segurança quando o que aconteceu em Vale de Judeus [uma fuga de cinco reclusos com medidas especiais de segurança] parece que não foi exemplo para ninguém nos serviços prisionais”, afirma.O presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional acusa, assim, a diretora do Estabelecimento Prisional de Beja, Adélia da Palma, de uma “má gestão”, independentemente, da “falta de efetivos que é transversal a todas as forças de segurança”, admitindo, inclusivamente, que a entidade está “à deriva”. “Tenho provas dos factos e não falo só por falar. Uma coisa que gosto de fazer sempre que tenho um problema é apresentar a solução e justificá-lo com factos e este é um dos factos que está mais do que relatado pelos colegas desse estabelecimento”, assegura. Segundo Frederico Morais, para além destas situações, existem também “perseguições constantes a alguns elementos do corpo da guarda prisional” e, por isso, a greve local que teve início em outubro, mas que foi suspensa “temporariamente” para uma negociação, vai ser retomada.

198 é o número de reclusos para 53 guardas prisionais no Estabelecimento Prisional de Beja, segundo o Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional.

“Foi isto tudo que nos levou a atuar neste sentido, [porque] queremos devolver o mínimo de segurança à cadeia. Nós apresentámos uma proposta à senhora diretora [e] os representantes do sindicato localmente tiveram uma reunião onde lhes foi dito que [esta] não aceitava, [sendo] que existiam propostas que eram exequíveis”, sublinha.De entre as medidas apresentadas, o documento propunha uma separação dos reclusos ativos ou que já têm saídas precárias dos reclusos inativos em pavilhões diferentes para que exista um maior controlo e uma redução do tempo de pátio dos mesmos.“O que nos preocupa é que se dá mais valor ao cante alentejano e em que se tiram guardas para levar reclusos para [atuações] em Vila Viçosa ou à Casa do Alentejo, em Lisboa, e se deixe a cadeia sem guardas prisionais, só com os mínimos dos mínimos”, afirma o presidente.

 

Guardas prisionais entram novamente em greve

 

Desta forma, Frederico Morais confirma ao “DA” que no plenário, que decorreu na quarta-feira, dia 26, em Beja, foi votada a necessidade de se regressar “à greve das horas extra” a partir de segunda-feira, dia 1 de dezembro, e, posteriormente, a uma greve geral a começar no dia 16. “Se não há vontade da direção da cadeia em negociar nós voltamos ao mesmo. A diretora não quer saber, o chefe da cadeira também não quer saber, não se preocupam com os seus homens e nós não podemos deixar os guardas desprotegidos”, adianta.O referido protesto, segundo Frederico Morais, passará por “limitar as atividades dos reclusos”, assumindo, assim, apenas os serviços mínimos, isto é, “não irá haver cante alentejano”, “as saídas ao exterior do recluso serão só em caso destes terem a sua vida em perigo ou para tratamentos para a tuberculose, hepatite, sida ou covid”, assim como “as saídas ao exterior para os tribunais só serão realizadas aquelas em que haverá alteração da medida de coação”. “Terão acesso à higiene, à saúde e à alimentação, mas estarão fechados 22 horas por dia”, assegura.Questionado quanto ao término da greve, o presidente do sindicato é perentório e afirma que a mesma terminará “quando as soluções tiverem em prática” ou caso exista “movimentação dos diretores”. “Não havia necessidade nenhuma de fazer uma greve por segurança. Costumo dizer que devíamos estar a fazer greves para reivindicar os nossos direitos como trabalhadores para as promoções nas carreiras [ou] na parte dos vencimentos, [mas] estamos a fazer greve para garantir a segurança das cadeias. Por incrível que pareça é isto que neste momento está a acontecer”, afirma. O “Diário do Alentejo” tentou obter esclarecimentos por parte da direção do Estabelecimento Prisional de Beja, nomeadamente, através da sua diretora, Adélia da Palma, não tendo, no entanto, recebido qualquer resposta até ao fecho da presente edição.

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