Diário do Alentejo

Cante Património Mundial: Nem tudo tem sido "um mar de rosas"

12 de dezembro 2020 - 14:40

Seis anos depois de ter sido classificado pela Unesco como Património Imaterial da Humanidade, o cante alentejano enfrenta uma das maiores crises de que há memória, muito por causa da pandemia da covid-19.

 

Texto Marta Louro

 

Para Pedro Mestre, músico, cantador, fundador e ensaiador de grupos corais alentejanos, este aniversário “é um bocadinho triste, demonstra a revolta e pode marcar a diferença” em relação ao entusiasmo dos últimos anos. “Vivemos em tempos de covid-19, o cante tem saído lesado, é coletivo, polifónico, com 15 ou mais vozes. Mas se o imaginarmos sem pandemia, percebemos que [também] não estava a viver de boa saúde”.

 

Passados seis anos da distinção, Pedro Mestre diz que a vida dos grupos corais se manteve igual. “Surgiram mais grupos e outras formações que pouco ou nada vieram acrescentar ao cante, muito pelo contrário”. Depois da festa, acrescenta, “os foguetes foram-se apagando” e está na altura de perceber o que é que o cante, propriamente dito, ganhou com a classificação da Unesco: “Na verdade, eu sabia que a classificação não ia trazer nada. No meu entender, o que mudou foi dá-lo a conhecer fora do Alentejo e dar-lhe um maior respeito”.

 

Segundo Pedro Mestre, “uma grande parte daquilo que hoje se fala e se diz ser cante, não o é. É outra coisa qualquer, é um cantar com influência de grupos corais: encontramos muitas formações que adulteraram modas e as destilaram de outra maneira. A partir daí deixou de ser cante, porque passou a ter uma interpretação com uma musicalidade fora daquilo que é a interpretação do cante propriamente dito, de plural, sem instrumentos”. Dito de outro modo, “o facto de se aligeirar aquela que é a interpretação de uma moda já deixa de ser cante, porque a musicalidade é outra, assim como é tradicional e não um cante orfeónico. Se assim fosse não seria cante, mas sim canto”.

 

Na sua opinião, nestes últimos anos “toda a gente está preocupada em ser diferente e em inovar o cante, mas esquecem-se que não estão a inovar, mas sim a desprezar o cante, a deturpá-lo e a deixá-lo morrer”. E, depois, ainda surgiu a pandemia para agravar, ou expor, os problemas. “Veio trazer uma morte que estava anunciada muito antes da classificação da Unesco, deu um pretexto aos cantadores para tomarem coragem e parte dos grupos corais ficarem por aqui na sua atividade. Muitos grupos corais já não caminhavam com saúde, andavam ao pé-coxinho e firmes em bengalas. A covid-19 veio retirar essas bengalas e os grupos caíram. Hoje, de certeza absoluta que 90 por cento dos grupos estão sem atividade. Se pensarmos que a maioria é composta por cantadores com idades de risco, observamos que não têm condições para manter funções e por isso estão parados”.

 

Quando a pandemia passar ver-se-á quantos grupos corais terão elementos suficientes para retomar a atividade. “Vemos jovens que amam o cante tal e qual como qualquer cantador da velho guarda, mas depois não vemos o jovem com a mesma responsabilidade que esse cantador mais antigo tem para com o grupo que integra. Esse é o grande problema. É difícil manter os grupos corais com história, com dezenas de anos, porque não se conseguem renovar”.

Foto | Nuno Veiga (Lusa)

O músico defende que para se fazer parte de um grupo coral é preciso ter um “grande sentido de responsabilidade e capacidade de encaixe” para aceitar a mentalidade dos mais velhos. “O gosto pelo cante tem de ultrapassar tudo isso e por vezes não é fácil. Vemos quartetos e quintetos a fazer cante, bem feito e com qualidade, mas depois não vemos grupos de rapazes a juntarem-se aos mais velhos para manter viva a atividade dos grupos com quase uma centena de anos. Há uma grande falta de dever na tradição”.

 

De acordo com Pedro Mestre, tem-se vindo a assistir a uma “perda da qualidade e especificidade do cante”, que se está a “tornar igual” em todo o lado. “Poderá existir um ou outro [grupo] que tenha beneficiado com a classificação da Unesco, que se tenha conseguido manter e que se tenha renovado de tal forma que hoje está bem de saúde, mas não conheço muitos que tenham passado por essa situação. É preciso dar passos atrás e cair na realidade. O cante precisa de todos, mas na verdade também caminha por si”.

 

TRAÇO DA IDENTIDADE DO ALENTEJO

“É sempre uma alegria recordar essa data que, apesar de simbólica, nos lembra a importância do cante e de uma tradição que vem de muito longe e que foi mantida e acarinhada pelos grupos corais durante décadas e décadas e que em 2014 foi reconhecida pela Unesco como Património da Humanidade. Foi muito importante para a autoestima dos cantadores, dos grupos corais e do próprio povo alentejano”, refere Paulo Ribeiro, músico, autor, compositor e ensaiador de cante alentejano.

 

“O cante não é só uma expressão musical, é uma expressão eminentemente cultural com toda a sua dimensão poética e é um traço de toda a identidade do Alentejo. Essa distinção foi importante também para que as entidades pudessem olhar de outra madeira” para esta realidade cultural. “Existiu também um aspeto muito importante: aumentou a curiosidade dos jovens. No decorrer da própria candidatura os jovens começaram a interessar-se cada vez mais pelo cante alentejano e depois, numa outra fase, começaram a organizar-se em grupo corais”.

 

Segundo Paulo Ribeiro, foi a partir da candidatura à Unesco que os projetos de cante nas escolas, que já existiam em alguns concelhos, se alargaram a mais estabelecimentos de ensino. Os próprios municípios começaram a “ter outro olhar” em relação ao assunto e avançaram com projetos de cante nas escolas. No concelho de Beja, por exemplo, todas as crianças do pré-escolar e primeiro ciclo dos dois agrupamentos de escolas tem formação na área do cante. Em seu entender, “estas crianças, independentemente de virem a ser ou não cantadores, vão transportar consigo e dar continuidade a esta tradição. Nas aulas não se fala só das modas, mas também, do que é que elas significam, e, portanto, há toda uma aprendizagem e uma ligação à cultura do Alentejo”.

 

Ainda assim, Paulo Ribeiro reconhece que “não tem sido tudo um mar de rosas”, partilhando algumas das opiniões de Pedro Mestre: “A candidatura à Unesco trouxe maior visibilidade, mas também alguma banalização do cante. Passados seis anos, só quem gosta muito, de facto, é que continua a cantar e a envolver-se. É um caminho que está sempre a ser trilhado”.

 

Por causa da pandemia, acrescenta, os mais de 100 grupos de cante coral estão “praticamente parados”, sem ensaios nem espetáculos. “Parece-me que deveria haver um maior apoio por parte dos municípios, autarquias e juntas de freguesias. Os grupos corais sempre estiveram disponíveis para participarem nas mais variadas iniciativas e agora mereciam por parte das entidades competentes um outro apoio, por exemplo ao nível dos ensaios. Alguns grupos têm espaços de ensaio muito reduzidos, qualquer câmara ou junta de freguesia pode ter um espaço ou uma sala maior, e facultar esses espaços com todas as condições de higiene. Esta atividade, à semelhança de outras, deve continuar e tem de se adaptar. Continuo o manter uma grande esperança para que o cante se mantenha vivo”.

“VAI HAVENDO UM DECRÉSCIMO”

Para António José, 64 anos, cantador no grupo coral Rancho de Aldeia Nova de São Bento, a “elevação” do cante a Património da Humanidade foi “excecional”, porque lhe trouxe uma “dimensão completamente diferente” da anterior: “Houve dinamização e proliferação dos grupos e apareceram muitos jovens a cantar”. Mas existiu também um lado negativo: “Houve um entusiasmo inicial, mas agora vai havendo um decréscimo. Ainda assim, o cante está vivo. Esta fase da pandemia é que veio cortar quase toda a totalidade da saúde do cante, que estava a viver um momento muito bom”.

 

A pandemia, salienta, “foi uma machadada muito grande” para o grupo coral Rancho de Aldeia Nova de São Bento: “Veio estragar o entusiasmo, alguns espetáculos já foram adiados duas vezes. Estão agora marcados para fevereiro de 2021, mas duvido que se consigam concretizar. O cante vai sobreviver à pandemia, mas pode sair beliscado”.

 

José Rosa Valente, de 82 anos, “cantador da velha guarda” nos Ganhões de Castro Verde, partilha da mesma opinião e refere que “infelizmente, os mais novos pensam que tudo aquilo que os antigos deixaram está mal. O cante alentejano, depois de promovido a Património da Humanidade, tem atraído muita gente que foge da origem do cante. As letras são as mesmas, mas acompanhadas por instrumentos ficam diferentes. O cante é somente a voz dos grupos”.

 

Cantador de 26 anos, José Diogo atualmente não faz parte de nenhum grupo, mas continua a trabalhar indiretamente com alguns corais. Fala da classificação da Unesco como um “reconhecimento e um privilégio”, que trouxe coisas positivas: “Passou a existir mais promoção, mais impacto e levou a que muitos jovens começassem e a cantar e interessar-se pelo tema”.

 

Segundo refere, a quase completa paragem de atividade desde o março trouxe inúmeros problemas à sobrevivência de diversos grupos corais. “Alguns já atravessavam uma fase complicada, há vários anos, por estarem envelhecidos e não terem jovens para lhe dar continuidade. A covid-19 pode prejudicar muito, mas talvez esteja enganado”, salienta.

 

José Diogo começou a cantar com três anos num grupo coral de Panóias, no concelho de Ourique. Fez parte de grupos durante cerca de 20 anos. Em seu entender, deveria “existir um certo equilíbrio para que fosse possível juntar os mais novos às pessoas mais velhas e mais experientes, o que nem sempre é fácil. É importante que se percebam e trabalhem juntos para que exista uma continuidade e salvaguarda dos grupos corais”.

 

“O CANTE É A PRÁTICA MAIS REPRESENTATIVA DO ALENTEJO”

“[A classificação] valeu a pena porque houve um reconhecimento do cante”, diz o antropólogo Paulo Lima, que coordenou a candidatura à Unesco, recordando que antes dessa distinção “o cante era considerado algo chato e de velhos”, tornando-se depois “numa coisa de todos, em que toda a gente gosta e canta”.

 

Depois desse dia, sublinha, “começaram a existir novos projetos, houve um enquadramento das mulheres que regressaram em força e as escolas começaram a apostar no ensino do cante. O processo de candidatura foi muito vivo e vivido, com o envolvimento de muita gente”.

 

A classificação da Unesco significou um momento de rutura. “O reconhecimento e até a própria autoestima dos grupos corais aumentaram bastante. A candidatura foi feita para os homens e mulheres que, muito antes disso, já olhavam para o cante como uma prática máxima do ser alentejano. Ao fim de seis anos, podemos dizer que foi um dever cumprido”.

 

Segundo Paulo Lima, “no exterior, o cante é a prática mais representativa [do Alentejo], mas não podemos esquecer, que convive com outras formas musicais, poéticas e coreográficas que existem noutras partes” da região. “O cante só pode acontecer em grupo. Isso é espantoso e numa altura como esta, em que somos obrigados a estar isolados, deve inspirar o nosso futuro, ou seja, devemos desejar que tudo isto passe, para depois voltarmos a estar em conjunto. É importante, também perceber as estratégias, que podemos implementar para voltar a ouvir as vozes do cante alentejano”, refere.

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