Diário do Alentejo

António Revez: "Além do drama financeiro, existia a urgência de criar"

27 de junho 2020 - 12:00

TRÊS PERGUNTAS A ANTÓNIO REVEZ, 

DIRETOR ARTÍSTICO DA COMPANHIA LENDIAS D'ENCANTAR

 

Texto: José Serrano

 

No sentido de minimizar os efeitos adversos que a Covid-19 trouxe aos criadores, a companhia de teatro Lendias d’Encantar, de Beja, e o centro Musibéria, de Serpa, uniram-se para apoiar músicos do Alentejo, numa iniciativa que conta com o apoio da Direção Regional de Cultura do Alentejo e que se intitula “A Minha Casa É Uma Pauta”.

 

No que consiste este projeto?

A Lendias d’ Encantar passou, em março, por uma situação complicada que foi o cancelamento do FITA – Festival Internacional de Teatro do Alentejo. Desde essa altura que nos apercebemos que os artistas e criadores, principalmente os independentes, iam passar por uma situação dramática. Lançámos, em março, em conjunto com a Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA) a primeira bolsa de aquisição de espetáculos, de forma a minimizar os danos económicos a alguns artistas – nessa bolsa adquirimos cerca de 30 atuações, essencialmente de teatro e dança. Como muitos músicos ficaram de fora dessa bolsa, decidimos, em conjunto com o centro Musibéria e novamente com o apoio da DRCA, lançar este desafio aos músicos da região, para atenuar as dificuldades financeiras que estão a atravessar e simultaneamente como um estímulo á criatividade. Como também somos artistas facilmente nos apercebemos que, para além do drama financeiro, existia também a urgência de criar, de trabalhar, de contrariar a monotonia do confinamento. Posteriormente iremos selecionar 10 temas, para gravação nos estúdios do Musibéria, e lançá-los em formato CD.

 

Qual o retrato que faz das carências sentidas pelos artistas no Baixo Alentejo, provocadas pela Covid-19?

A situação é bastante grave, os artistas foram dos primeiros a cancelar a sua atividade profissional e serão dos últimos a retomá-la. Mas o grande problema é que os artistas vivem numa permanente e difícil situação de precariedade há muitos anos consecutivos, o que torna ainda a situação mais gravosa – estamos a falar de seis ou sete meses sem qualquer rendimento. Esta pandemia só veio colocar a nu a necessidade de haver uma política sólida, consistente e permanente que dê estabilidade ao sector. Por outro lado, a juntar às consequências económicas, salientamos também a impossibilidade de exercer a atividade artística. E um artista não pode viver sem o palco...

 

Considera que os artistas, na região, têm vindo a ser apoiados de forma adequada às circunstâncias? 

Não. Infelizmente não foram tomadas, pelo poder central e local, as medidas que se exigiam face a esta situação. Esteve mal o Ministério da Cultura, estiveram mal alguns municípios que deviam ter ido mais longe nas medidas para atenuar a gravidade da situação. Esta é a altura de atuar, de agir rapidamente. Não é admissível que algumas entidades levem dois meses a lançar ações para minimizar os impactos provocados por esta pandemia.

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