Diário do Alentejo

Património: Os bailaricos ao ritmo da gaita de beiços

20 de agosto 2019 - 10:00

Texto José Serrano

 

Tem formação em Relações Humanas e Comunicação pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Politécnico de Leiria. Desenvolve atividade comunitária através da participação na vida associativa e em diversas causas cívicas. Foi vereador, com o pelouro da Cultura, na Câmara de Castro Verde, entre 1998 e 2017, período em que foi corresponsável por vários projetos, alguns na área do património imaterial, como o Museu da Ruralidade – Núcleo da Oralidade. Fez coordenação editorial de publicações e realizou programas culturais na rádio. É membro da Associação de Cante Alentejano Os Ganhões.

 

Foi lançado no passado dia 25 de julho, no programa “Património”, da Rádio Castrense, mais uma brochura da coleção “Para conhecer e fazer”, editada pela Associação Pédexumbo. Com o título de Ao Toque da Flaita no Concelho de Castro Verde, os textos da brochura, elaborados a partir de conversas com tocadores, são da autoria de Paulo Nascimento.

 

Estamos perante um documento que nos faz viajar aos bailaricos de outrora?
Esta edição parte da conversa com quatro tocadores de flaita – denominação usada para a harmónica – que ainda restam no concelho de Castro Verde. Fala das realidades que lhe estão associadas, onde os bailes eram um espaço de eleição. A brochura tem o intuito de valorizar um instrumento que foi muito popular em festas e arraiais de todo o País, tendo vivido o seu auge nas décadas de 40 a 60 do século XX. Por ser um instrumento pequeno, barato e fácil de tocar, tornou-se popular e utilizável em qualquer ocasião. O entusiasmo era tanto que levou a que o fabricante alemão Horner lançasse um modelo denominado de “Fado Portuguez”, que era vendido em todas as feiras.

 

Os tocadores de flaita eram, nas festas populares, o equivalente atual aos organistas, aos DJ, às bandas de covers?
Era o tempo em que nas aldeias não havia outro instrumento para animar os bailes, por isso os tocadores de flaita desempenhavam esse papel. Por vezes calcorreavam, de noite, quilómetros a pé ou de bicicleta, para tocarem em bailes que se prolongavam até altas horas, terminando só quando os lábios não aguentavam mais. O ideal era quando se juntavam vários tocadores que, revezando-se, tocavam muitas horas seguidas. Caso isso não acontecesse, a receita podia passar por introduzir em determinados momentos modas de baile, o que possibilitava ao tocador descansar enquanto se cantava.

 

Existiam na altura, pelo desempenho ou pela alegria que proporcionavam aos festivos, verdadeiras “estrelas da flaita”?
Havia tocadores afamados. Habitualmente, o tocador arrebatava namoros, era o primeiro a formar par para abrir o baile, demonstrando que a harmónica permite tocar e dançar em simultâneo, tivesse o tocador arte para isso.

 

Qual a importância deste instrumento nas relações sociais das populações de Castro Verde?
A flaita era motivo para que as pessoas se encontrassem, proporcionava momentos de partilha, era uma componente dos poucos momentos de lazer. Estes tocadores, no final dos dias de trabalho, iam tocar aos montes, onde se juntavam os trabalhadores, onde não faltavam as moças do Algarve que vinham ceifar e mondar. Em função da época do ano, os bailes decorriam nos terreiros ou casas das povoações, mas também nos mastros por altura dos santos populares. Os tocadores aprendiam a tocar de ouvido, influenciados por alguém que lhes era próximo, o que implicava uma transmissão de conhecimento, da arte do toque e de algumas danças, às gerações seguintes.

Comentários